Entrevista com Jádison Coelho, poeta baiano, estudante de literatura, cultura e arte afro-brasileiras. Participante da Antologia Literária Cidade volume 10 (edição rotativa), da coletânea 100 poemas 100 poetas volume 02 e da antologia poética Sob os sinos do Natal. Jádison se revela numa poética diasporizante e cloática, numa voz lírica que fere como navalha pontiaguda e cega – que corta rasgando.

Jádison Coelho nasceu em Salvador-BA, no dia 25 de Julho de 1992, é natural da Atlântida Negra e do planeta Marte, poeta visceral, graduando no curso de Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia, pesquisador nas áreas de Literatura e Cultura, uma voz em vozes mescladas às identidades múltiplas, que constituem um espelho quebrado em estilhaços despidos de poesia escancarada na garganta virada. Viajante, diasporizante em ousadia, por ser um exilado da República, Coelho pega picula com os mais velhos e ultrapassa as fronteiras territoriais. O poeta dobrado em múltiplos, participou do projeto Bate Papo Musical (A Produtora- Salvador-BA) , da antologia e prêmio 100 poemas 100 poetas (LiteraCidade– Belém-PA), de boa fé integra a comunidade de Luso-Poetas. Por gosto dum gostar de em público maldizer de si e dos outros, publica alguns poemas nas redes sociais. Jádison Coelho participa da Antologia “Cidade10” (LiteraCidade- Belém-PA) com sete poemas que revelam de qual cloaca saíra para o mundo beijar. Cria de Anjos, Gregórios, Baudelaires e Bocages, lambedor da face roseana, o poeta baiano não é ninguém, é ele mesmo debruçado em leituras ao passo que ninguém lhe satisfaz o desejo de ser alguém pintado às irís saltitantes do leitor. Mas se não o quiser lê-lo, faz muito bem! Coelho é um fingidor, dissimulado, tem a língua escorregadia em forma de tapete. Ele finge tanto, mas tanto, que, finge fingir e mente de forma desmemorada. Esse poeta não é nada, meu senhor. E se um dia ele foi alguém, esse alguém não existiu, pois o existir é a capacidade respiratória dos não vermes. Releve a sua verve, quem feito hiena ataca, é por quê pode ser Ninguém.

ELC – Jádison, fale-nos sobre o seu contato com a palavra-poética, como foi que isso começou a se fazer com força em suas mãos e em sua garganta? Como e quando você resolveu sair da gaveta com essa pujança que vemos em seus textos?

Jádison – A palavra poética é feito uma vertigem em mim, vem aos poucos acendendo em memórias, remói tudo por dentro até chegar ao grito empalavrado das coisas cruas que meus olhos veem e minhas mãos devoram. Tudo começou quando percebi as cidades que estão compondo a cidade e os excluídos que nela inexistem aos olhos do desdenho, e também existem aos olhos por entre os muros de concreto vão. Desde muito menino, essa poética sangra em mim e agora picha os muros de bons tons. Muito tentei um espaço literário, uma oportunidade, um olhar que pudesse ler os meus poemas, e era excluído por não condizer com aos bons costumes em versos. Resolvi causar um super caos, deixando o espelho cair no chão, estilhaçando os cacos por toda a parte. O público reagiu de maneira interessante e já foi o suficiente para o exilado das cidades e rotinas, pois não estava somente eu, em corpo de voz poética, exilado das páginas feitas ao agrado grátis. O prêmio Literacidade “100 poemas, 100 poetas” foi um pontapé inicial para que os textos saíssem da gaveta e cortassem as íris saltitantes do leitor. E assim se mostra a minha poesia, que é garganta.

ELC – Você já enviou trabalhos prontos e completos para editoras? Quais respostas obteve?

Jádison – Já enviei trabalhos prontos e completos pras editoras sim. Somente duas me responderam a favor de uma publicação. As outras editoras, quando retornavam, respondiam que a minha escrita estava fora dos padrões pra publicação, e que autor e obra não se encaixavam no perfil editorial de dada editora.

ELC – Como você nos conheceu? Qual sua reação ao respondermos seu primeiro material enviado?

Jádison – Conheci através da indicação de uma professora da UFBA que gostava de ler meus textos e acreditava num potencial para publicação. Essa professora me passou o contato da LiteraCidade, fiquei sabendo do “100 poemas, 100 poetas”, enviei um poema que já tinha composto há muitos anos e recebi um email informando que fui contemplado e teria um poeminha publicado pela editora – meu primeiro poema publicado “Espelhaçado Eu” no “100 poemas 100 poetas V.2”. Fiquei surpreso, pois era tudo muito inviável na minha imaginação a ponto d’eu não acreditar numa possível seleção. lembrando que já tinha recebido pelas editoras, vários nãos como resposta

ELC – Nós apreciamos muito seus poemas. Algo fora do padrão, à revelia. Conte-nos sobre seu processo de criação e sobre as “Cantigas Prosadas” que publicamos na Antologia “Sob os sinos do Natal”.

Jádison – Não crio nada. Anjos, Gregórios, Bocages são os culpados d’eu receber um rasgão nos olhos e um punhalado na garganta que permitissem tais poemas e me descobrisse em meus estilhaços identitários. A poesia é uma ferramenta importante pra movimentar as águas paradas e envenenar os antídotos da estética puramente estática da vida. Geralmente, eu componho os poemas sentado na privada da minha casa. Os detritos podem muito bem servir como adubo. Repentinamente me vem toda ânsia de bondade insana, corto e recorto as carnes da minha imaginação, e presas na língua floresce um canto gritado. As prosas cantadas, intituladas numa sequência de Cantigas Prosadas, que integram o “Sob os sinos do Natal”, descortinam a vertente nordestina das festas de Reis na Bahia. Essas cantigas conseguem ter um efeito instigante de desconstrução de alguns conceitos natalinos e uma maior aproximação com o Norte-Nordeste brasileiro. Ao escrever as Cantigas Prosadas, deparei-me com as memórias de mim e das festas de Reis no bairro da Lapinha da cidade de São Salvador. As festas de Reis em si, são cantos prometidos, olhos noturnos de sabedoria e paciência.

ELC – Quais são suas leituras? Quais os poetas de cabeceira? Aqueles que contribuem para sua escrita, para o seu repertório.

Jádison – Gregório está muito presente em minhas leituras. Jorge Amado foi muito lido por mim, devido a grande repercussão nacional e internacional desse baiano e suas obras. Quando me matriculei no curso de Letras da UFBA, peguei um livro velho, no fundo da estante, o “Grande Sertão Veredas”, e comecei a enveredar pela criatividade em ser co-autor em leituras. Caetano da Costa Alegre, Bocage, Conceição Lima, a poeta santomeense, o poeta também baiano José Carlos Limeira e poetas populares entre as ruas da Bahia tem me instigado profundos interesses de leitura. Muitas pessoas comparam os meus poemas aos de Augusto dos Anjos, apesar de nunca o ter lido. Um dia chego lá!! Todos esses poetas contribuem para a minha escrita, em especial Gregório, Guimarães Rosa, Bocage, e não posso esquecer do tão presente Herberto Helder.

ELC – Fale-nos da influência dos estudos sobre africanidades para a produção de seus textos na vertente afro, sobretudo o inédito “Filho de nhá-Bahia” Provavelmente publicado pela LiteraCidade este ano.

Jádison – Tenho uma vertente africana muito bem acentuada. Uma ligação direta com África. Pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, tenho trazido na escrita muito do que sou e do que me aprofundo em pesquisas. Gosto de ser Brasil sendo África e saber o porque disso tudo. Na vertente afro estou nos rizomas da diáspora africana em ancestralidades. O livro inédito “Filho de Nhá Bahia” reúne poemas acerca da minha ancestralidade baiana e portuguesa, identidades baianas, brasileiras e nordestinas. Muito de “Nhá Bahia” é auto biográfico. Nesse livro inédito, escrevo sobre os povos da Bahia, a natureza dura e farta que constituem o que sou, só que em poesia, a outra parte se faz no tempo.

ELC – Dia 20 deste mês (20/01/2014) haverá o lançamento da Antologia Cidade Volume 10 (edição rotativa) com performance de seus poemas. “Navalha-poesia” seria sua profissão de fé? Como está a recepção de seus trabalhos e como surgiu esta parceria com Aline Corujas, Marta Pinheiro e Pedro Henrique Lima?

Jádison – Ser Navalha-Poesia é a minha missão. É preciso descortinar os muros, viver entre as ruas dos desalmados, mendigos, levantar-se contra os olhares pré-estabelecidos. Minha poética é exu exurizante, sabe das ruas e conhece as torres de cristal. Ser ninguém é a minha profissão, assim me faço nada sendo um pouco do que ainda me restou ser.
Publiquei alguns poemas na Antologia Literária Cidade V.10, e não esperava uma boa repercussão do público. O público abraçou os poemas, para a minha surpresa. Sinto que as pessoas estão mais maduras, porém não o suficiente, para lidar com algo desafiador, contestador. Sinto que o que a minha garganta virada, ao girar mundos, escarrou em versos, foi aquilo que muita gente gostaria de dizer, mesmo não estando preparado para ouvi-lo. A coragem foi abraçada por braços agora desatados. Livres! Libertos, totalmente nu, sem se importar com qual corpo seja e esteja. Estou muito Feliz com a repercussão positiva. Isso estimula o poeta a cantar cada dia mais o povo par ao povo.
Enquanto a parceria, já tinha há um ano com Marta Pinheiro, uma das autoras da foto Capa da Antologia, artista plástica, também poeta, apaixonada pela pintura, designer e poesia. Já Aline Corujas, chegou-me pelo fanpage, sinalizando ter lido os meus poemas e considerando a minha maneira poética inspiradora para compor os seus quadros e desenhos. Revelou ter a sua inspiração de volta após a leitura dos meus poemas, por ela considerado como audaciosos e imagéticos. Pedro Henrique Lima, juntamente à Corujas, ganhou o prêmio juvenil de Belas Artes em designer , apostando numa arte mais urbana e contestadora, juntaram-se a mim e Marta Pinheiro para integrar um movimento, que inicialmente dá nome ao evento, Navalha-Poesia. Trata-se de uma leitura poética das ruas aliado aos poemas contidos na Antologia Literária Cidade V.10. O evento, que contará com a participação da grande cantora Claudya Costta, e o lançamento da antologia, na Biblioteca Pública da Bahia, tem sido esperado pelo público como um momento de revelação da arte baiana, reunindo poesia, música e fotos que figurarão os meus poemas. Fazer arte no Brasil, em especial, na Bahia, é uma arte!
É preciso ser Navalha!!

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