Publicado n’O Liberal

Amor e dor

Raimundo Sodré

Hoje vou dar uma patriotada. Dar uma caprichada no suprimento de camarão, da minha cuia de tacacá. Vou fazer o meu comercial. Desfilar o meu charme nas passarelas das letras, que eu não sou besta nem nada.
É que na Feira do Livro deste ano, participo de uma antologia poética. O livro foi organizado pelo professor Abílio Pacheco e pela professora Deurilene Souza, e compõe a quarta edição de uma série que divulga a produção literária, dos quatro cantos do Brasil (e de umas barras além-mar).
Na Feira, assim como a quarta edição, as versões anteriores terão espaço e acho que muitas outras produções geradas pelo empenho dos professores do curso de Letras da UFPA serão apresentadas ao público, também. Os autógrafos e o bate-papo com os escritores participantes das ‘Antologias’, realizam-se no Estante dos Escritores Paraenses. E eu, neste fim de semana lá estarei, a esperar por vós, fieis leitores da coluna, para uma prosa amiga.
Fiquei feliz, quando me certifiquei da possibilidade de participar de um livro de poesias. Primeiro, por causa do reconhecimento. Honrou-me o fato de ser lembrado. Segundo, porque, embora eu esteja exercendo uma linguagem em prosa com um viés bem popular aqui na coluna, nos últimos anos, alguém acreditou na minha veia poética e apostou em um produto mais devotado da minha lavra (confesso: embora em noites escuras e silenciosas eu vagueie cínico e impuro pelo vale das rimas, não me considerava mais um poeta. Sei lá, achava que tinha perdido a ternura). Acho, por fim, que o convite para figurar entre tantos e bons poetas, numa publicação que se destaca como uma das mais pródigas no cenário paraense, em mim teve o efeito de um resgate. De uma pulsação brusca, renovadora; de um lampejo ardente, edificante. Minha alma, por certo, alegrou-se.
A minha contribuição para a antologia é singela. O poema que integra o livro não é recente. Já tem uns quantos anos no costado. Nem é inédito. Foi publicado aqui mesmo na coluna com uma roupagem diferente, com um jeitão de prosa sem a ortodoxia das marcações (uma estética que, muito humildemente, tomei emprestada do romance “Zero”, do Inácio de Loyola Brandão). Mas entrou no livro porque o considero um dos meus poemas mais legais. É um dos meus queridinhos. Prezo-lhe pela forma e pelo conteúdo. Por isso o selecionei para flanar sobre o leito editorial. Se bem que, pensando de outra maneira, acho que não o escolhi porque ele é bonitinho, não. Teve a sua vez porque marca de forma significativa a minha guinada para a prosa. É um poema que não quer ser. Ou quer ser, mas peraí que eu tô pensando. É meio indeciso. É, ao mesmo tempo, despedida e desistência. É, no mesmo instante, desencanto e insistência. Migra entre a criação, sufocada de paixões; e os dizeres, bêbados de razão. Oscila, descuidado, entre o amor e a dor. Abriga uma verdade, porém. Por isso acho que tem um charme. Um segredo. Um desejo. Um cochicho que não vai ser captado por outro órgão que não seja o coração, posto que por ele, foi ditado. Este é o meu poema que me redime e me revigora como um poeta que eu sempre quis ser. E está no livro ‘Antologia Literária Cidade IV’, no Estande dos Escritores Paraenses, no Hangar. Passe lá e peque o seu exemplar. Pronto, já fiz o meu ‘comerciar’ (eu sabia que este papo todo ia dar em uma rima, mesmo que uma rima pobre e barbaramente forçada).
Fiquei tão entusiasmado com o convite e com a perspectiva de ver a minha poesia, na Feira, que no início do ano, me bati para criar e acabei criando um blog para abrigar os meus versos, mesmo aqueles de antigamente, quando eu era pequenino do tamanho do botão. Estou firme, por lá. Toda semana faço uma nova postagem de velhas e queridas composições poéticas, afinal, tudo vale a pena…